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COLUNAS

Do tempo de cada coisa

Por: Raoni Rosa - 13/11/2014
artigo
“Felizes os que sabem que entre o plantar e colher há o cuidar e regar.”
 
Há algum tempo, em um curso de Kenjutsu aqui em Belo Horizonte ministrado brilhantemente por Shidoushi Thiago, um participante comentou ao final que o melhor que o curso ensinou para ele é que há um tempo para cada coisa. Interessantemente, ele conseguiu entender um dos grandes tesouros no nosso kenjutsu em apenas poucas horas.
 
O fato é que o Kenjutsu, assim como a maioria das formas estudadas hoje na nossa Escola, é apenas uma ferramenta para se atingir a um objetivo maior, a uma compreensão mais ampla da realidade que nos cerca. E essa realidade, nesse plano que vivemos, está presa em quatro dimensões. O tempo é a mais abstrata delas, pois é arbitrária, subjetiva e relativa.
 
Arbitrária porque essa forma de contar o tempo nada mais é que uma convenção humana baseada em parâmetros que tentamos ajustar em relação a passagem do tempo dita “natural”, ou seja, duração do dia/noite, estações climáticas, volta da Terra em torno do Sol, etc. Assim, diferentes povos, de diferentes culturas e em diferentes épocas, marcaram o tempo a sua maneira, segundo sua necessidade.
Subjetivo porque cada pessoa percebe essa passagem do tempo de forma individual. O tipo de atividade realizada, o grau de envolvimento, a rotina da atividade, são apenas alguns parâmetros que farão com que cada pessoa perceba a passagem do tempo de forma diferente. Às vezes acelerado demais, outras vezes, lento demais.
 
Além da passagem do tempo, os mais espiritualizados nos ensinam que os fatos e acontecimentos têm um tempo para acontecer. Um instante no qual diversos aspectos convergem para que um fato, um acontecimento, um encontro, um desencontro, ocorra. Um ancião muito sábio me instruiu que a grande roda da vida não para. E que tudo o que acontece tem um tempo certo de acontecer. De começar, e obviamente, de terminar. Isso envolve desde relacionamentos interpessoais, questões profissionais até chances e momentos para crescimento e desenvolvimento pessoal. Mas a grande roda não para. E se o tempo para um evento passa, será necessário esperar que toda a roda gire novamente para então podermos tentar cumprir com a missão que nos cabe, naquele tempo, naquele momento.
 
Isso nos remete a algumas importantes lições: a primeira delas é paciência. Não adianta correr, o tempo não passa mais rápido. O Sol não vai nascer antes só porque temos um problema urgente para resolver na primeira hora do dia seguinte. A primavera não vai começar mais cedo só porque o inverno está rigoroso demais, e parece que não vamos resistir. A fruta não vai amadurecer na hora que temos fome. É preciso saber esperar pelo tempo de cada coisa. Junto com a paciência, a perseverança. Continuar trabalhando, pois o inverno vai acabar, e sim, o Sol vai nascer. Não importa quanto escura está a noite. Junto com a perseverança, a serenidade. 
 
Nesse instante, cabe a reflexão sobre os ciclos que compõe a vida. Se estamos falando de “roda da vida”, claramente estamos fazendo analogia a um evento que se repete periodicamente. Nascemos, morremos, nascemos de novo. A cada instante, a cada ano, a cada vida. Entender isso, em superficial profundidade, é entender que não adianta se apegar a coisas, pessoas, instantes. Eles vão passar. Eles vão morrer. Nascerão novamente, em um outro tempo, em uma outra forma. Serão desconstruídos e reconstruídos novamente, incessantemente. Afinal, como construir em cima de algo que preenche todo o espaço disponível? Shidoushi Thiago nos instruiu em um texto recente: para construir coisas novas, conhecimentos novos, vida nova, é preciso desconstruir aquilo que trazíamos antes, as coisas antigas, os conhecimentos antigos, a vida antiga.
 
Entender os ciclos da vida, os nascimentos e mortes a que somos submetidos diariamente não é fácil. Mais difícil ainda é aceita-los, sem apego. Perseverar quando tudo parece perdido também não é fácil. Mas tudo isso nos faz senhores do nosso destino. Pois nada disso implica dizer que então somos apenas marionetes do destino, do karma, do futuro, nos restando apenas aceitar e esperar. Paradoxalmente, somos pequenos frente às grandes questões da vida e do karma, especialmente naquilo que toca os outros, ao mesmo tempo que somos senhores ativos do nosso destino, pois a cada instante nos é permitido escolher quais portas abrir, e quais fechar. Às vezes antes do tempo. Às vezes depois. Ou talvez antes e depois sejam apenas conceitos que nossa mente usa como subterfúgios para tentar controlar alguma coisa. No fim, dirão os mais sábios que tudo aconteceu no seu devido tempo.
 
“Que Deus me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, força para mudar aquelas que posso e sabedoria para diferenciar as duas...”
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